
Às vezes fumo um piriri. Gosto de fumar piriris. Penso sempre no meu pai e sinto-me culpada quando fumo um piriri. Nunca fumei sozinha, mas talvez chegue lá um dia, no deserto, para me esquecer que estou no deserto - e a gostar - ou na Irlanda, rodeada de pastos e vacas. Adoro aquela sensação de que tudo é bom e possível depois do primeiro trago no piriri. Sou daquelas que diz para riso dos amigos: Isto não está a bater nada. Uma vez, em Amesterdão, fiquei toda a noite a fazer amor e outras porcarias, com sensações extraterrestres e com ataques sucessivos de riso, por causa de um piriri maravilhoso. Piriris dão fome boa. Piriris dão vontade. Piriris fazem rir muito e afastam o olho grande que é uma coisa diferente do mau olhado. Com piriris fica mais fácil dançar como uma marioneta - abanando o corpo e a cabeça descontroladamente - e achar que estamos a ser bué sedutores. Piriris são bons para falar e ir lá atrás buscar coisas boas. Há um movimento que defende às claras, que os consumidores plantem os seus próprios piriris para se acabar com o tráfico. Há um movimento que deseja secretamente que a Lara Li volte a cantar. Sou dos dois e acho muito bem. Ler aqui.
Resolvi que voltava ao Rio no dia em que entrei na Fnac do Vasco da Gama perguntei por um livro da Agustina Bessa Luís e me disseram que todos, TODOS os livros dela tinham sido devolvidos à editora. Tinha acabado de beber uma daquelas àguas de sabores que agora há aí em Lisboa e que são extremamente viciantes, sentia-me bem e segura, mas gosto sempre de ler para roubar ideias. Leio muito os bons, porque é assim que se aprende.
A vendedora da Fnac devia ter uns vinte anos e era feia e tinha borbulhas e vivia em Porto Salvo e estava cagando para a Agustina portanto também cagou de alto para o meu espanto questionador snob, Mas então quer dizer que vocês não têm livros da Agustina?
Sim, deviam estar aqui há muito tempo sem vender e por isso foram devolvidos.
Não tenho dúvida, isso é um país entregue aos bichos.
Tenho um amigo, que por acaso é o meu melhor amigo, que me diz algumas vezes – quando me vê muito eufórica – que eu não posso viver a vida como se estivesse dentro de um filme. Que não posso querer só sexo bom, só aventura, só sedução e bons jantares. Que tenho um problema com pessoas feias, isto é, que só gosto de pessoas bonitas e isso é triste e faz de mim uma canalha com uma idade mental bastante inferior aos meus - quase - quarenta anos.
O que ele me quer dizer é que eu tenho um problema com rotinas e amores (a chatice do amor é quando ele se prolonga e torna uma instituição de barbas brancas defendida pelos terapeutas familiares) e que a vida não pode ser a loucura que eu quero que seja sempre e para sempre.
O Gordo Egoísta
O Gordo Egoísta já existia lá na escola desde a pré-primária. Na Segunda Classe foi aluno da D. Irondina, uma velha para quem o Movimento da Escola Moderna não passava de uma prática de Belzebu. Isso impossibilitou-o de pôr as mãozinhas de fora e andar no recreio a chatear os outros. Nenhum aluno dessa senhora conseguia fazer muito mais do que passar horas e horas a fazer cópias para aperfeiçoar a caligrafia .
Acontece que no ano seguinte, o Gordo Egoísta acabou por ir parar à turma da Maria Idalina, que também desconhecia qualquer movimento moderno, mas era a minha professora querida, sendo que o meu ano de 1977 decorreu atazanado entre um Gordo Egoísta e aquela música, “uma gaivota voava, voava” de contornos levemente revolucionários, que falava em sermos livres de voar e isso, naquele colégio, era uma grande revolução cultural.
O Gordo era o miúdo mais rico da turma, o que levava as melhores bolachas para o lanche, tinha sempre dinheiro para as Bolas de Berlim na cantina, usava borrachas Milan, vindas das Galerias Preciados, em Badajoz, estojos de dois andares com vinte e quatro lápis Viarco- que é claro, nunca emprestava a ninguém e andava sempre com a boca cheia de caramelos. Enfim, o Gordo Egoísta era um miúdo nojento, muitíssimo anafado e com uma penugem negra por cima do lábio. Mas como os pais eram ricos, era o protegido das professoras e no recreio todos queriam fazer parte da sua equipa de futebol – ele era o dono da bola – mesmo sabendo que nunca poderiam marcar os pénaltis. E isto não era tudo, além de um ditadorzinho da bola, o Gordo Egoísta era um torurador do pior denotando, aos sete anos, enorme prazer nos jogos de poder com que nos manipulava, a todos, por um caramelo.
Pequeno aparte que considero interessante, mas que poderão pular, sem perder o rumo ao texto: Nunca mais na vida comi caramelos e ando a tratar disso com o meu analista, porque talvez e digo talvez, já tenha tido tempo suficiente para ultrapassar esse trauma, porque até tenho filhos que são loucos por caramelos e não lhes consigo comprar um único que seja, sem acabar numa néscia prelecção às crianças. Sei que estranharam, mas eu queria mesmo usar a palavra néscia. A isto se chama o prazer da escrita.
Continuando, o clímax da história com o Gordo Egoísta porque depois ele saiu do colégio, foi acontecer num aniversário do dito cujo. Uma festa cheia de pernas de frango assado colocadas em vinte e cinco pratinhos alinhados, em cima de uma mesa enorme e croquetes e rissóis de camarão e sumos de laranja Tang e Bombokas e tias esquisitas a mimarem o bicho.
Aconteceu quando lhe pedi para dar uma volta na bicicleta Mini Órbita Cross vermelha dele e a resposta foi, claro, Não! Não tendo muito mais o que fazer, tinha sido a primeira a chegar à festa fui para o quarto, toda amassada com a nega, jogar ao Petróleo sozinha, o que é muito agradável e odiá-lo para sempre. Como Deus existe e os acasos são para os afortunados (eu), ele estava a vestir a roupa para a festa e para meu gozo – as crianças são muito cruéis - pude ver que tinha uma pilinha ridícula, ridícula. Muito mais pequena que a dos outros amigos da mesma idade. Percebi tudo e tirei uma Conclusão filosófica porque aos sete anos já tinha destes insights: o Gordo Egoísta era um asqueroso, mas tinha uma razão para o ser: uma mini pila da qual precisava vingar-se. É que foi logo lição para a vida: homens egoístas têm pilas pequenas. Têm pilas pequenas e conduzem carros grandes, carros grandes e alemães. Conselho (hoje estou em aconselhamentos): Não sejam egoístas. Aviso: Meninas fujam, meninos que gostem de meninos, fujam. A vida é curta demais para aturar miniaturas.
Toma lá Gordo Egoísta, esta crónica é toda para ti. Aprende a arte da generosidade. Já nem digo do altruísmo. Talvez a pilinha te volte a crescer.
PS – Por exemplo, eu se fosse a Penélope Cruz, do Javier Bardem, juro que não seria egoísta ao ponto de privar as outras mulheres do mundo de darem uma voltinha com um maridão daqueles. Coisas lindas têm que ser partilhadas e nesse caso – de eu ser a Penélope - talvez até também gostasse de ser partilhada.
Porque é que o Gordo não me deixou dar uma voltinha na Mini Órbita Cross? Estúpido. Vocês lembram-se da belezura que eram aquelas bicicletas?
O louco do Chavez disse que os americanos são os responsáveis pelo terramoto no Haiti. O favelado do Liedson chegou a vias de facto com o beto do Ricardo Sá Pinto. A Rita Lee provocou num show fantástico, no Rio, que não votaria na Marina Silva para presidente porque, ela tem cara de quem está com fome. Na Dilma Rousseff também não porque, tem cara de professora de matemática e mete medo.
A Sandra Bullock e a Meryl Streep deram um beijo de nadinha e foram manchete. Aposto que a gira da Sharon Stone, depois de alfinetar a Streep usando a frase “she looks like an unmade bed”, deve estar a rir. Cada uma tem os beijinhos que merece. Não venham dizer que as mulheres não têm piada, é preciso é saber encontrá-las. E isso dá trabalho.
Parece que as loiras são mais determinadas que as ruivas e as morenas. A Pamela Anderson diz que adora ser a típica loira burra, but she´s not my type. Já a Blondie, a Scarlett Johansson ou a Marilyn... Pois. Vamos lá meninas, acabemos todas loiras, no escurinho do cinema ou no You Tube, a olhar atazanadas para a Penélope Cruz, moreníssima, naquela cena do Nine, A Call From the Vatican. Vale tudo menos tirar olhos. Peçam-nos humor, mas nunca coerência.
i eu com ela, vingando-me. O Gordo Egoísta.

Era uma vez um megafone - take 2
hoje há conquilhas, amanhã não sabemos