1.06.08
QUERIA PROTEGER A CABEÇA, escapar dos altos e baixos que é a habituação ao escitalopram. A vida não tá mansa, não. Morrem-me pessoas à volta. Dizia Maria Madalena de Jesus, velhinha de 102 anos, ontem no Globo, O segredo da vida é viver. Vamos fundo na exigência. Fiz a rua toda no sentido inverso do mar – está frio na cidade – para chegar à Dias Ferreira, onde fica a livraria Argumento e sentar para tomar um chocolate quente, só porque a temperatura baixou aos vinte graus e faz um friozinho. Daí aproveito, bebo vinho, como fondis e calço as botas da Hera.

Apesar do palavreado, da choraminguice declarada com que vos chateio e me chateio e tento sustentar as minhas fragilidades, ia com um fito. Claro. Mulheres sempre têm alguma coisa na cabeça. Queria comprar esse livrinho aí ao lado. O boca a boca é lixado, que era muito bom e tal, uma verdadeira viagem ao interior feminino – e o interior feminino é aquela complicação repelente que só interessa a malucos ou poetas – que havia amiguinhas até que preparavam chás e coisos e se deitavam em redes nas varandas, ou sentavam em poltronas especiais, em cantinhos especiais de suas casas, devorando com cuidadinho, sim, mas devorando, as páginas do dito cujo. Havia até as que se obrigavam a ler apenas cinco páginas por dia ou por noite, tudo para fazer tamanho prazer durar. E a Julia Roberts e as que eu mais gostava, aquelas que depois de terminado o calhamaço tinham abandonado a análise. Uma loucura. Cariocas loucas, malucas, raladas, tristes e tão lindas. Cariocas em ponto de bala.

Lamento dizer, mas o livro. Mas o livro. Ai, que me custa dizer, que agora sei como custa chegar ao fim de um coiso. Mas o livro, o livro, não faz nada, nem dá orgasmos e é uma merda. Não sei onde ando com a cabeça.

Adenda: dos intelectuais, ok? Dos intelectuais.



por Mónica Marques às 11:30

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