5.04.08
Estamos na rua com Marta, que acaba de comprar um cigarro avulso, ao antipático dono da banca que fica ao lado da Padaria Rio-Lisboa. E só aqui estamos, quais sanguessugas porque intuímos que tem alguma coisa para contar. Senão para que quereria ela, que nem fumava, o tal cigarro?Para a ajudar a pensar. Para a ajudar a refletir sobre a cena dessa manhã. A revê-la vezes sem conta, sentada no banquinho incómodo da rua, ao lado das duas personagens que conversavam sobre Trás-os-Montes naquele sotaque caricato à Roberto Leal, enquanto seguiam, quase hipnoticamente, os frangos que rodavam nos espetos da máquina em frente.
Uma boa música de fundo, a voz das velhas, para o filme que tinha sido encontrar Miguel, pinto na mão, em frente ao espelho da casa de banho.

Primeira tragada no cigarro.
- O que é que estás a fazer? Tinha então perguntado estupidamente, ao irreconhecível tarado nu à sua frente que a olhava aflito, não mais que uma criança - uma criança tarada, coisa essa muito pior. Julguemos sem medo, que é para isso que cá estamos, enquanto a deixamos dar uma segunda tragada no FREE vermelho. Esta ainda mais sentida porque recordava enojada como quis sair a correr, desatar a berrar, gritar impropérios. Mas apenas se ouviu naquele: Não acredito! Baixo demais, com a porta aberta demais e imediatamente culpada demais. Como se houvesse uma merda de uma culpa e essa culpa fosse de quem não dava o corpo ao manifesto.

Nova pausa para ver os frangos rodar. Agora também sob o olhar vigilante do vendedor, que admirava aquele friso de mulheres tão esquisito, sentadas no banco. Respirou fundo e deu uma terceira e longuíssima tragada no cigarro, desta vez sem inalar e lamentavelmente a última a que assistiriamos, satisfeita toda a mórbida curiosidade e sem encontrarmos nada de jeito para dizer sobre um marido que faz coisas com o pinto, sem consentimento expresso, Vá faz lá para eu ver, Caras e bocas ao espelho da casa de banho, às dez da manhã de um dia de semana.
Todos com vontade de cair fora, abandonar a protagonista às velhas tugas e aos frangos assados. Que não há cu, Arranja um emprego, mas é, infelicidade é coisa que se pega. Mandem vir o fumacê.

por Mónica Marques às 11:44

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