29.05.09

Hoje vi a velhota do AVC. Ha seis meses que nao a via e no meio da vidinha fina, das inusitadas entrevistas que ora me afagaram o ego, ora me tornaram uma fobicazinha social, das analises a tiroide, das conversas obtusas sobre o sentido da vida, das provas de calculos da minha filha e das suas incertezas nocturnas quanto a amizade (que tento apaziguar protectora), quase me tinha esquecido de pensar nela.

Desta vez nao apanhava sol no Calcadao. Era simplesmente passeada, numa rua em Ipanema, de cadeira de rodas, por uma baba.  Pareceu-me igual, nem mais velha, nem mais doente. Apenas a mesma visao dantesca. A mesma boca toda aberta (nao a deve conseguir fechar) com os dentes de fora. Uma almofada branca no colo e a cabeca atirada para tras. As maos dela, como da outra vez, continuavam atadas pelos pulsos aos bracos da cadeira. 

Nao sei como aquela coitada ainda continua viva, apesar de saber muito bem que 'e dificil morrer, porque ja vi morrer. Mas espero que volte a passar por mim, daqui a outros seis meses, cheia de sol na cara. Mesmo que, no caso dela, o sol ja nao sirva para nada. 

Faz-me lembrar de duas ou tres coisas essenciais.

 



por Mónica Marques às 01:43

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