7.08.09

 Pedro Paulo encostou-se ainda atordoado ao balcão de vidro da lanchonete BB Lanches, em plena Avenida Ataúlfo de Paiva. 

Ele sabia que aquela história não podia acabar bem.  Não conhecia histórias daquelas que acabassem bem, também não era especialmente letrado ou conversador  para saber mais sobre as mulheres e não precisava porque elas eram todas iguais e ele não entendia coisa nenhuma sobre elas e gostava assim.   Lembrou-se de Vitorinha que tinha sido a primeira e contava os beijos dele p´ras amigas e passava os dias fazendo-o chorar escondido dos pais e morrendo de ciúme dos olhos verdes dela e das palavras que ela dirigia a todos os meninos do colégio, todas aprendidas em  livros de vocabulário dificílimo para ele, em que meninas se apaixonavam por vampiros.  Nos livros que ela gostava havia sempre uma história de vampiros.

Quis sumir. Ir uns dias para o sul pegar onda adoidado. Se ficasse no Rio ia de certeza cruzar com ela numa esquina do pré-carnaval, linda de doer, seduzindo um desses garotos mijões de cerveja Skol, nos canteiros da calçada, em frente a garotas lindas e totalmente a fim de garotos desses,  que só se divertem deixando as ruas mais fedorentas que banheiro de estação de metrô.

“E aí patrãozinho, não vai pedir nada? “,  PP ouviu o garçom perguntar. 

Como não sabia o que estava ali a fazer, ainda digeria a frieza de Isabel lá na praia,  tinha esquecido de pedir alguma coisa. Então Pediu. Pediu um suco de maracujá, porque precisava se acalmar, enquanto procurava as chaves de casa porque não as sentiu no bolso de trás do short e não ia ficar zanzando pela rua que nem um cachorro perdido. 

Tenho que me recompor ficar forte, comer, pensou.  Mas não tinha  fome . Aliás, há dias que só comia bananas, ouvia Everybody Hurts do REM e olhava a rua pela janela do conjugado, onde ela  ia encontrar com ele alguns dias de semana durante a tarde, que era quando ela podia.  Mulher casada só pode transar a meio da tarde dos dias de semana, uma chatice, o meio da tarde não era a sua melhor hora e os dias de semana também não e quase sempre fazia um calor extremo que em vez de lhe dar vontade, o deixava mole.  Mesmo assim ainda era bom, porque a desgraçada tinha um jeito louco para rimas fáceis e lhe dizia coisas lindas enquanto estavam juntos, antes e depois  do amor, ou do sexo,  ou do intercourse,  palavra horrível que ela falava muito, enchendo a boca num inglês muito  pedante na parte do course,  porque andava aperfeiçoando a língua no Britannia, para poder viajar para Nova Iorque sem o babaca,  ou com o babaca do marido. 

Gustavo, vamos a Nova Iorque fazer aquele Workshop?  You work, i Shop, ah ah ah ah ah.  As gargalhadas dessa mulher eram uma coisa tão gostosa! Que merda e agora?

Pagou o suco e pensou que tinha que voltar à praia para recuperar as chaves esquecidas na bolsa linda que ela usava e dizia This is not a plastic bag.  Aquela que tinham comprado juntos, porque ele achou que era a cara dela e pago com o cartão de crédito do outro. Ele porque não tinha um real no bolso, ela porque adorava o dinheiro do Gustavo.

Sabia que Isabel  - já não conseguia muito bem falar esse nome -  ia estar com aquele olhar distante de horas antes , quando a frio e sem metáforas – ela usou essas palavras, a metida lhe dissera que não poderia mais se encontrar com ele e que o amor deles tinha sido uma mentira e que agora um troço qualquer tinha se quebrado dentro dela. Uma estupidez pegada, que ele não teve força para negar.  Muito por causa do amor próprio e das lições de sua mãe, “Meu filho você será sempre melhor que qualquer vadia dessas que você arruma pra sua vida.”

“De qualquer jeito mamãe, eu já estou meio que sem vida”,  filosofou pra dentro e isso o deixou muito mais a fim de voltar à praia e com força para encarar a amante perdida.  Já o povo costuma dizer,  perdido por dez perdido por mil . Pedro Paulo era louco por filosofias baratas.

Então antes do acidente,  ela, Isabel, a vampira má de seus últimos sonos mal dormidos e embalados a pesadelos,  estava deitada de costas na areia fina da praia.  

E depois aconteceu tudo muito rápido. Convidou-a para entrar no mar e lá dentro, enquanto fingia que não era só músculo e lhe dizia que ia correr tudo bem, foi isso exatamente que ele disse, Pedro Paulo era muito criterioso com as suas lembranças,  “Vai correr tudo bem, Isabel”  e ela prestava muito atenção no que ele dizia, com certeza espantada com a súbita maturidade do amante despeitado,  a onda se aproximou  e os dois mergulharam juntos de mão dada como fazem tantos casais apaixonados no Rio de Janeiro.  E então, com  um golpe preciso, PP forçou Isabel a permanecer em baixo de água muito mais tempo do que o necessário para aquela onda passar.

Saiu do mar sozinho e muito a fim de ir comer a feijoada de sábado em casa de D. Dulce.  E nem uma vez sequer olhou para trás. 

Claro que as mulheres são todas umas putas,  falou alto. Mas isso só ele ouviu.

II.

Todas menos Dona Dulce que o recebeu de braços abertos e o foi mandando direto para o banheiro como fazia quando ele tinha cinco anos, para ela, ele teria sempre cinco anos.

“ Porque não tirou essa areia dos pés lá em baixo,  mas o que é que você tem Pedro Paulo?  O que tem comido? Essa harpia comedora de meninos está acabando com você, não consigo imaginar o que você viu nessa mulher.” 

 “Nem eu minha mãe, nem eu,” respondeu, enquanto beijava a mãe e se afastava porque não queria mais conversa. “ Agora me deixa ir pro chuveiro que quero almoçar logo.” Ficou em baixo de água sem se mexer, só sentindo a força dos esguichos  em suas costas e nos ombros e na bunda e na barriga e no pau, que Isabel  - Deus, como era cada vez mais difícil esse nome -  afirmava ser muito lindo. O mais lindo. “Os paus dos garotos de hoje são muito mais bonitos que os dos homens da minha idade.  Deve ter a ver com esses Corn Flakes todos e esses iogurtes cheios de vitamina que vocês comem.”

  Não conhecia forma melhor de se acertar. Desde pequeno corria para o chuveiro quando precisava pensar. Durante a adolescência, que foi quando Pedro Paulo mais pensou, chegava a tomar quatro banhos por dia, o que levava D. Dulce a achar que seu filho se masturbava muito,  mas  ao menos era muito limpinho.  Jamais tinha encontrado meias sujas,  ou outras peças de roupa suspeitas como suas amigas, que tinham tido terríveis encontros com as peças de roupa das inconfessadas loucuras imberbes de suas crias.

Adorava-o, mas o pudor entre mãe e filho impedia-a de fazer muitas perguntas. Todas as que a atormentavam nas noites em que tentava dormir sem sucesso - tal a actividade de seu cérebro, exatamente entre as três e as cinco da manhã.  

Infelizmente há certas coisas que por mais que se queiram saber não se perguntam nunca a um amigo, muito menos a um filho. Ela nunca lhe perguntava se ele se lembrava do cheiro dela durante o dia ou quando estava com suas namoradinhas  –  acharia muito normal que ele se lembrasse, ora - Ou se ele gostava mais dessas outras mulheres, do que dela.  O ser humano é muito ingrato e os filhos mais ainda.  As coisas que ela deixara de fazer, outros amores que deixara de ter, ou que tinha tido e abandonado só para que a harmonia familiar não se fosse,  essas coisas,  alegrias obrigatórias,  aquela  alegria que tem que ser porque tem que ser e o que tem que ser tem muita força.

“Estamos na mesa meu filho”,  D. Dulce tinha o mau hábito de gritar muito de cômodo para cômodo, em vez de chegar perto e se comunicar baixo e educadamente,   Você não sai desse banheiro? Olha o desperdício de água menino, olha o mundo, a Amazônia e a Etiópia. Vamos acabar que nem bichos. Julguei que já tinha parado com essa coisa de ficar horas se esfregando. 

Pedro Paulo, ainda em baixo do chuveiro, ouviu a voz de sua mãe vinda lá de dentro da sala e gritou, tal mãe tal filho. “Eu não tou me esfregando mamãe, a senhora sabe que eu gosto é de pensar. “ 

Fechou a água e ficou mais um tempo à volta das palavras bonitas que aquela de quem já não conseguia falar o nome lhe tinha dito lá na praia.  Estava farto de palavras.  E estava ainda mais farto das palavras dela, porque as palavras dela mandavam tanto nele que o deixavam descontrolado.  Há homens assim. Babacas incapazes de  resistir às palavras em esquemas de adoração filhos da puta.  Esta mulher era uma subversiva, pensou.  O  era como se ela fosse o passado que ainda não era. 

Nem soube explicar de onde lhe vinha tanto adjetivo. 

 Porque ela se abanava para adormecer?

E enquanto se vestia recordou outra menina.  Sempre que vestia shorts lembrava dela,  porque ela lhe dizia que ele tinha pernas lindas e há coisas que um homem nunca esquece. Ah, Vera Lúcia, ela não se abanava antes de dormir, mas andava sempre com um livro em baixo do braço.  Com essa, ele gostava de ir nas livrarias roubar os livros dos poetas franceses que ela lia. Meninas adoram vampiros e também poesia e Vera Lúcia era louca por esse veado do Rimbaud.

  Sentou-se à mesa ainda com os pingos de água escorrendo de seu cabelo loiro de parafina e proclamou satisfeito, para delírio de sua mãe: “Nossa,  que feijoada gostosa . Vamos lá?”

 

III

Ele nunca trabalhou, esse garotão. Trinta anos e ainda nas costas da cafona da Dona Dulce. Onde já se viu uma mulher da minha idade gostar de ser chamada de Dona.  

Viver no Rio é uma droga. Eu gostava de viver era em Miami e viajar pra Londres de três em três meses. No Rio não se faz nada a não ser ir à praia e ter calor, ir à praia e ter calor. E nos feriadões subir a Serra pra sentir um friozinho, poder calçar umas botas e tomar um vinho e comer fondues nos restaurantes daquela rua de Itaipava.  A única. Acho que cheguei a levar o Pedro Paulo pra Itaipava,  naquela altura em que o amor por ele fazia eu querer lhe mostrar tudo e era tudo o que havia : Era raiva da mãe dele que não gostava de mim, ciúme das meninas da idade dele...Só essas coisinhas que embrutecem. Uma vez li num jornal uma coisa que a Paula Rego falou pra uma jornalista sobre paixão. Paixão é um tema que toda a mulher gosta. Ela dizia que quando se está apaixonado a pessoa é levada como numa passadeira dessas de aeroporto sem poder pôr os pés no chão.  Mas na altura não sabe bem o que está acontecendo, porque não tem noção. 

Amei. Achei aquilo fantástico. Fiz de tudo pro Gustavo comprar um quadro dela, fiquei louca por ela, estudei toda a sua pintura e a sua vida. Tive vontade de começar a pintar, também. 

Nessa altura o Gustavo ainda queria muito sexo então eu dei muito sexo. Quase acabei comigo, mas consegui o quadro, estou a olhar pra ele aqui na frente. Os homens são muito burros.

Então eu estava ali na praia a ter aquela conversa com Pedro Paulo, mas na verdade eu já não estava lá. Queria que ele fosse embora, queria ficar pegando sol e ler as besteiras do Lula, no Globo. Relaxar. Era-me indiferente o que ele dizia. Sentia um cansaço dele, um cansaço que vinha  com o fim do amor que chegava a me exasperar ou enjoar, não sei. Mas era isso que eu sentia enquanto o ouvia. 

Coitado, ele lá falando dos meus lugares preferidos e onde ainda poderíamos ir. “Vou te dizer onde eu ainda quero ir com você, Isabel. Quero atravessar aquela sua ponte em Verona, ficar na tal pousada em Florença, ir no cemitério onde você diz que está enterrado o cara do Doors,  em Paris. Porque é que você já não tem vontade de viajar pra me mostrar essas coisas?”

E o monólogo dele me dando uma náusea tão grande que não agüentei e o xinguei,  “Que chato Pedro Paulo,  pára de jogar conversa fora, acabou, não tenho mais paciência para metáforas, vamos fazer isso a frio. Vai embora, vai pra casa, sua mãe vai adorar te ver.  Nunca mais. Acabou, eu já não te amo mais. “

“Não me ama, então fala.”

 “Já falei.” 

“Então fala de novo, fala.” 

“Pára de gritar Pedro Paulo, olha lá todo o mundo olhando, odeio baixaria.”

E então, como se um santo qualquer tivesse descido nele para o ajudar a compreender melhor e me ajudar a mim a acabar com aquela história de merda,  ele foi ficando,  finalmente,  quieto e calado como um menino a quem  é negada alguma coisa. Senti pena dele.  

Ficámos assim uns dois minutos, ou três, nunca fui boa de cronometrar e depois ele levantou, pegou  as havaianas e sumiu atrás de mim. Nem olhei. Depois levantei da cadeira que estava em baixo da barraca e me deitei em cima da canga, aliviada e tentando esquecer aquilo tudo. Só sentindo o sol no corpo e achando que me tinha finalmente livrado de uma encrenca.  Gustavo já não andava achando graça nenhuma às minhas escapadas e esquecimentos. Ultimamente esquecia até de pagar as contas e de pegar as camisas dele na lavanderia.

Por isso quando Pedro Paulo depois voltou à praia, fiquei uma fera. Mas ele parecia muito mais tranquilo. Me falou que tinha esquecido as chaves do apartamento dele dentro da minha bolsa e que tinha vindo só pegar. Me perguntou,  com o ar mais calmo e carinhoso do mundo,  como eu agüentava tanto sol sem ir no mar e eu disse que minha pele estava acostumada ao sol e ele riu e perguntou se eu não queria ir no mar com ele, afastar o mau olhado de nossos corpos,  uma última vez. “One last time,” eu falei, bem contente comigo por ter levado a conversa a bom porto. Estava calor mesmo, porque não.

Entramos no mar e ficámos juntos conversando um pouquinho, ele dizendo que ia correr tudo bem connosco e eu nem aí pro que ele queria dizer com aquele tom de voz enigmático, vai correr tudo bem, até que veio uma onda mais forte e ele me avisou, “Mergulha,  Isabel.  Se não vamos levar um caixote.” 

O mar no Rio é muito traiçoeiro. As ondas te levam pro chão e não te deixam subir. Mergulhamos juntos e quando eu estava tentando voltar à superfície senti que uma mão me forçava a não voltar e comecei a engolir muita água e não me lembro de mais nada porque desmaiei.  

Quando acordei tinha muita gente em volta, inclusive um salva vidas lindo,  me batendo suavemente no rosto.  Vi que não tinha morrido, ou então ele era um anjo saído daquelas praias lá de Malibu e eu estava no paraíso, mas os anjos parece que ainda não fazem respiração boca a boca. 

Tentei encontrar Pedro Paulo no meio das pessoas, mas o menino tinha sumido. Acho que tentou me matar, o coitado.

( publicado na Visão Estilo & Design)

 

 

 

 

 

 

 



por Mónica Marques às 20:37

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