12.08.09

Uma vez, no tempo em que os surfistas estavam na moda e o meu pai me levou a Cascais a uma loja recôndita para comprar uns sapatos de vela vermelhos, uma vez, nesse tempo, eu apaixonei-me assim. E não dormia e não comia e havia a velha cena das borboletas na barriga e a Madonna a cantar  Celebrate no primeiro andar, na casa onde morava esse meu amor que, soube há poucos anos, se tornou gay, (não quero esclarecer se terá tido a ver comigo) .  Mas, então, lembrar faz bem e até dá para escrever livros, como sabes.

Por isso te digo que nenhum amor é vão. Nenhum. Nem os que acabam à bofetada, ou em silêncios ressentidos porque se disse tudo e não se foi a lugar nenhum e realmente as palavras não chegam - ás vezes a cena que também me acontece,  é  a de que  as palavras vêm às golfadas e por isso o melhor é ficar calada para não perder a compostura e não fazer feio.

Depois deixamos, muitas vezes, de poder ouvir músicas boas durante uns tempos, porque nos lembram o lado de talhante dos nossos amores e em casos mais graves ainda, podemos até deixar de ler bons autores, porque também nos lembram a carnificina que é o fim do amor. Mas vale a pena, ouviste? Vale a pena, porque é como ter filhos e a gente esquece-se e o prazer de perder o controlo mais e mais e mais uma vez é tentador e mágico como se tivesses cheirado uma linha de cocaína.  E dá uma tesão do caraças.

E faz-nos  querer encontrar novas palavras e não repetir outras frases lindas que se disseram ou nos disseram e em certo momento seriam muito recicláveis. Nada. Nada. Nada. Não vale repetir nada. Isso é batota. Tudo tem que voltar a ser feito com a loucura possível e o terror de estar a cair de um prédio de sete andares. Porque se assim não for já morremos e ninguém nos avisou. Dito isto, vou correr. 



por Mónica Marques às 17:39

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