6.09.09

Estava a ver a cena de amor do Mulholland Drive do David Lynch no You Tube, quando recebi no email o pedido para escrever esta  crónica. Há uma altura no meio daquilo tudo (leia-se dos linguados e suspiros das duas) em que a Naomi Watts  sussurra ao ouvido da Laura Elena Harring: I want to, with you. Qualquer mulher de jeito tem que ficar um bocado amarfanhada com aquilo. Mas falo por mim, não quero ferir susceptibilidades. Eu nunca vi coisa mais erótica em toda a minha vida. Se não viram, vejam; mas, por favor, depois da crónica.  Serão só mais uns minutos, alegrem-se, como na música do Vinícius " hoje é Sábado" e aos sábados tudo é bom e doce.

Isto para vos dizer que ando com vontade de experimentar ir com uma mulher. Só que entre a realização deste desejo diabólico e a realidade, está todo um inóspito universo de atrevimento de que normalmente fujo a sete pés, ui-ui,  escrevendo de forma totalmente inconsciente ou alienando-me fumando baseados, bebendo gin tónicos, ouvindo qual evangélica o Padre-que-canta, ou sendo estupidamente corajosa (atrevida) como nesta crónica.  Não sou uma pessoa resoluta e não gosto especialmente de me arriscar.

Eu não sei porque não me pediram para escrever sobre o amor ou a saudade - coisas que me encantam - ou sobre a curiosidade. Talvez sobre a curiosidade isto pudesse também não dar certo, pois por associação livre ou catarse colectiva,  podíamos acabar na grande, grande, suruba woodstokiana, que nunca vivemos em Portugal. Para isso tivéssemos nós ousadia (atrevimento) que eu, na vida real, não sou nem gira (aproveito para dizer), nem especialmente ousada, nem de longe aventureira como uma massagista brasileira ou uma Hippie cabeluda, mulheres emancipadas e dadas a essas coisas.  Sou portuguesa e faço o bigode. Mas adiante. A minha massagista, a minha deusa das mãos de ouro, pessoa com quem já me passou pela cabeça satisfazer a minha arriscada (atrevida) “fantasia  Mulholland Drive” - vai ver me apaixono -  perguntou-me, outro dia, se eu queria ver as calcinhas novas que ela usava e tinha acabado de comprar na Leader Magazine e, com o maior denodo (atrevimento), despiu as calças e ficou assim, não tenho outra forma de o dizer,  na minha frente, com elas na mão, fantástica, só com as tais calcinhas apertadas com lacinhos, um de cada lado da cintura linda dela.

Seriam as massagistas portuguesas capazes de tamanho atrevimento para com as suas pacientes? Acho que não. E como reagiriam as minhas companheiras na luta contra a celulite? Talvez achassem a cena procaz, insolente, desaforada e até petulante. Enfim, de um atrevimento descabido.

Estas palavras (procaz e tal) não costumam andar muito nos meus bolsos. Quem me conhece sabe até que sou uma pessoa com muita dificuldade de expressão, escasso vocabulário - três ou quatro palavras chegam  (uso muito “ o coiso, aquele coiso”) - e pouco jeito para a oralidade, e que, a cada ano que passa, falo menos e escrevo mais. Ora é esse exactamente o desespero dos meus entes queridos, que assim se vão vendo a braços com uma colecção de antolhos lastimáveis, todos impressos e para a posteridade -  agora que em Portugal já ninguém forra os caixotes do lixo com jornais velhos -    enquanto redescobrem, no que lêem, outras tantas fraquezas de espírito que talvez preferissem que guardasse só para mim. Acontece que, mesmo parecendo que não, tenho que ganhar dinheiro. E ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo, e vamos lá, escrevo levada pela vil necessidade de ter sempre em casa uma caixa de Gin Tanqueray. Dito isto saibam que para mim um texto só está bom se, depois de impresso e nas bancas, eu tiver alguma vergonha do atrevimento que tive.  Pois é assim que a coisa funciona e - sim, isto com tratamento vai lá - juro que tentarei compensar com a alguma timidez,  da próxima vez que encontrar um ente querido ou for perguntada numa festa (adoro festas) sobre mais esta crise existencial: “Eh láaaa! Então agora queres ir com mulheres?”. Já estou mesmo a ver a resposta muito volúvel, eu toda em apuros, na defesa da minha feminilidade: “É que não consigo esquecer aquele chico esperto (atrevido) que me apalpou toda no Roller, em Lisboa”.  Que há atrevimentos que por mais que me esforce não consigo achar piada e os melos ( há quanto tempo não ouviam esta palavra?) do rapaz foram trágicos.

 E depois também me ocorreu o rabo que aquele rapaz da camisa aos quadrados mostrou ao ministro em 1993 - uma memória de elefante a minha - que me levou desde aí a olhar com desconfiança todos os homens de camisa à pescador da Nazaré - e isso ainda não me passou e já estamos em 2009 - e enfim, que o rapaz devia era ter-se controlado, ido para casa jogar futebol, ou ter ido praticar jiu-jitsu, para libertar a testosterona  em outras actividades que não nos obrigassem a ter que olhar para aquele rabo adolescente cheio de pêlos.

Oiçam: Freud é mesmo uma religião - comprei ontem uma t-shirt que diz Pink Freud, não é óptimo?  E como isto anda tudo ligado, melhor não deixar os meus filhos lerem jornais, muito menos incitá-los ao atrevimento, coitadinhos, respeitinho é muito bom. Nem mais uma alma artista em casa. Para artista estou cá eu e o Freddy Mercury, de calções e pila de toureiro, a cantar ao vivo Another one bites the dust. Grande atrevidaço, numa ousadia de jeito, que deixa esta crónica e o rabo do outro a léguas. Nem sei porque acabei a falar em pilas. Só posso estar pior do que pensava.

 

 

(Crónica de ontem no "i" -  Nós, Atrevidos.) 

 

 

 

 

 

 

 



por Mónica Marques às 03:48

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