6.12.09

 Agarradinha ao Big Love

 

Tenho um vício. E nunca pensei que falar dele fosse tão difícil, ou tão melancólico e não luto nada contra ele, apesar das ressaquinhas de merda que às vezes dá.

Para escrever esta crónica alem de me ter servido um Martini Bianco duplo -  tão bom,  não sei como fiquei sem beber durante anos - dei por mim à procura, aqui na estante da casa de Lisboa onde tenho os livros da minha adolescência, de cábulas,  provas materiais e explicações dessa coisa maluca em que sou viciada, o meu barato, desde que tinha quatro ou cinco anos e era feliz porque podia ser egocêntrica à vontade,  que ninguém me dizia nada e até achavam graça. Pena, agora já não é assim. Mas então nessa procura,  lá encontrei as tais provas explicativas da minha viciosa tara: Dois livros.  E foram eles que chamaram por mim da prateleira empoeirada onde estão, sempre à espera de catrapiscar o meu olhar porque, como se sabe, os livros não dormem.

Cheia de dedos tirei-os da estante já com miaufa das mãos e dos braços e dos cheiros e das pernas e das radiações das pessoas que eles (ainda, grande tarada) me iriam trazer. É desconcertante rever um grande amor, mas viciados são tão loucos que por um bocadinho de qualquer droga na veia correm o risco e estão por tudo.  Ficar com olheiras até ao chão e um aspecto deprimente de cachorro abandonado que tanto assusta os que me querem bem são bons exemplos dos momentos que se seguem ao vício. Por isso é mais ou menos assim que eu ando sempre, recorrendo vezes sem conta ao corrector de olheiras que, ainda por cima, não sei usar submetendo-me às maquiadoras de serviço na Sephora,  fartas de me ensinar truques maravilhosos que estou sempre a esquecer. Cada um é para o que nasce e eu é mais para o pó dos livros na versão menos glamourosa: limpá-los.

E de dentro dos livros saem coisas que não esperamos e que são inconvenientes.  Tenho escondido dentro deles, ao longo dos anos, cartas de amor vergonhosas que não mandei e que não destruí numa completa carência das minhas faculdades mentais.

O Amor Nos Tempos de Cólera do Gabriel Garcia Marquez, Edição D. Quixote, que já não era folheado há anos, quase se desintegrou agora nas minhas mãos. As folhas soltaram-se por completo, caiu de lá de dentro um papel que apanhei sem ler e já voltei a colocá-lo na prateleira cheia de medo.

Lembrança: Esse livro me foi oferecido por um fantasma, os dois dentro de um carro em Monsanto – um Volkswagen Pólo, Verde After Eight - com os vidros já levemente cheios de vapor de água.  Nós e as putas, às 22h30 de uma segunda feira de Outubro, do século passado. Tão lindos na nossa  falta de noção do tempo, a olhar um para o outro e a ler alto passagens sublinhadas do livro,  deveras incapacitados de outras coisas a não ser sermos totalmente insanos e  comermo-nos até ao tutano.

 

(Paragem para um refill  de Martini e um suspiro melancólico)

 

Caixa alta,  vamos lá: O meu vício é apaixonar-me. Uma coisa patológica. Um hábito repetitivo que degenera sempre em merda e causa prejuízos vários. Não que me apaixone por tudo e por nada ou por dá cá aquela palha, até porque dá muito trabalho e é deveras cansativo garantir uma vida que satisfaça este instinto cavernoso de entrar na alma das outras pessoas e as virar do avesso. Ninguém aguenta viver sempre num pico igual  ao Everest. Até porque isso gela o nariz. Mas, para dizer a verdade, o meu vício tem-se agravado com a idade. Talvez agravar não seja a palavra exacta. Melhor dizer que o meu vício tem apurado,  que perdi a vergonha e o medo e que adoro sentir-me vulnerável ao lado de quem para mim é único, totalmente diferente e com um percurso de vida inigualável. Pelo menos durante esse pequeníssimo espaço de tempo em que vivo totalmente desembaraçada da razão e invento o amor que quero para mim e para o meu amor. O momento em que  deixo de acreditar que os espíritos superiores são sempre pessoas melancólicas ou tristes e isso dá jeito numa tarde de segunda feira chuvosa à porta do Lidl, preparada para comprar produtos com nome em alemão.

Quando era mais pequena e me apaixonava ficava feliz, mas não ia chegando e falando desbocada, como agora, pretensiosa como agora, apaixonada pela própria paixão, como agora,  Olha estou apaixonada, quero-te, acho-te uma pessoa fantástica e única e quero perder-me contigo no Big Love, já ouviste aquela música dos XX?” .

Não. Tinha vergonha e mais juízo.  Nem sabia fazer joguinhos tortuosos de prolongar a paixão, como privar-me um bocadinho do meu amor de propósito.

Sabia lá que a paixão tem que ser vivida com requintes de malvadez, a ponto de não haver nada melhor do que afastarmo-nos do nosso objecto de desejo, para o querermos ainda mais e com ele abandonarmos a vidinha de caca que temos.  No vício, tudo acontece como numa intoxicação  e se experimentarem verão que é impossível achar que a vida faz sentido de outra maneira. E isto é peta, eu sei, mas é estupidamente irresistível, porque apaixonados estamos sempre a esquecer o mal que todas as paixões antigas nos causaram. Haverá coisa mais tentadora e doce que isso? Esquecer o mal que fizemos e nos fizeram e seguir em frente como se nunca nos tivéssemos acabado a chorar dentro de um avião de e para o Rio de Janeiro?

A felicidade não está estacionada num lugar proibido e mesmo que esteja eu não pago as multas do meu vício.

 

PS – O segundo livro que caiu da estante foi Memórias de Adriano, da Marguerite Yourcenar, Edições Ulisseia. Tinha isto sublinhado: “Atravessaram muitas vezes a minha vida paixões semelhantes; esses frequentes amores não me haviam custado, até então, mais que um mínimo de juramentos, de mentiras e de males. A minha breve predilecção por Lúcio levara-me apenas a algumas loucuras reparáveis.”  Acho isto lindo. Agora vou ali ter com o meu amor.

 

Publicado na revista do i, Nós Viciados. 

 

 

 

 



por Mónica Marques às 11:11

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