21.12.09

 Raimunda

 

Não agüento mais olhar a cara da minha patroa. Mas tenho que olhar. Acordo às quatro e meia da manhã pego a Van e o Pirata e desço na Antero de Quental.  Vou caminhando, meio dormindo, até ao Talho Capixaba a padaria de grã finos  e filhinhos de papai do Leblon que tem o pão francês que ela gosta e os croissants do seu Vergara. Nunca sei dizer esse nome de bolo de gringo pro moço do balcão, fico sempre envergonhada.

Não tenho a chave do AP.  A perua tem que levantar para abrir a porta. Ela faz isso sempre de calcinha e soutien e volta para a cama, para dormir até às nove. Olho muito a bunda dela enquanto ela volta pro quarto.

Boto a mesa do café. Faço o suco e o café amando a bunda flácida de minha patroa. Bunda de fumante. Tem caído muito ao longo desses anos. Por isso seu Vergara tem aquelas Playboys todas no criado mudo.

Sempre que posso vou  nas Lojas Americanas e compro uma calcinha nova. Já trabalhei em casa de patroa que usava calcinha linda. Essa não liga pra calcinha. Faz mal, porque homem é tudo igual e vai procurar fora.

O que eu mais odeio é calcinha bege. Já falei pra ela não usar, que calcinha bege tira a tesão de homem. Ela só tem calcinha bege. E calcinha tem que ter bolinhas e ser muito colorida. Eu uso fio dental. Minha bunda é gostosa.

Troco o lençol toda a sexta. Ele e ela não transam.  Maridos não gostam de transar com as mulheres,  mas gostam de todas as outras.  Doutorzinhos ricos de quadra de praia, no Leblon, fazem no máximo duas vezes no mês. Falo disso com minhas colegas, quando estamos subindo pra casa dentro do Pirata.  Elas dizem o mesmo.

Só Jupiara, que trabalha em Copacabana, jura que os coroas fazem toda noite.  Eu acho que é porque é Copacabana e lá as ruas são mais quentes e é tudo mais quente e há muita fumaça e poluição.  Sexo é sujo mesmo. Todo mundo mente muito sobre sexo, o que gosta no sexo, essas coisas.  Eu também não conto pra ninguém. E já fiz tudo. Menos com animais. Isso não gosto não.  Mas sexo não é pra ser limpinho, tem que ter suor, tem que ter palavrão no ouvido, sangue também e outras coisas, como dedos na boca do outro, assim é que é gostoso. Adoro sexo.  Sou uma lutadora mas no sexo é a única altura em que me rendo.

A minha amiga fala que a cueca do patrão tem cheiro. E eu pergunto,  Mas Jupiara quando é que você cheira a cueca do cara?” 

Então ela explica que é quando vai botar na máquina, pra lavar. Aí ela dá uma cheirada, lá na área de serviço. Nenhuma patroa entra na cozinha, quanto mais em área de serviço. E a Ju adora cheirar cueca desses filhinhos de papai que fodem que nem cachorrinhos.

Já trabalhei pra Alemão e sei que lá também não se fodia e nem precisei ficar cheirando cueca. Deve ser coisa de europeu não foder e brasileiro tem mania que lá é tudo bom, então fica imitando. Brasileiro é burro mesmo.

A Ju é pirada. Mas o barato da Ju é outro. Acaba que  todo o marmanjo se apaixona por ela e ficam lá fazendo às escondidas das madame na cama e no banheiro da suíte.

Ela fala que todo grã-fino gosta de comer ela por trás se olhando no espelho do banheiro. Homem é tudo besta, mesmo e tem um que de tão louco por ela, a levou pra comer picanha no Porcão da Ilha do Governador. Por esse ela se apaixonou.

Só que depois, claro, alguma coisa sempre dá errado e ela acaba sendo mandada embora pelo fodedor arrependido. 

Por isso tem umas que não botam pra trabalhar dentro de casa  neguinha bonita. Tem que ter algum defeito no corpo ou na fala, ou ser muito velha.

Eu sou feia de cara, mas boa de bunda.  Minha patroa é que ainda não viu e continua lá, usando aquela calcinha bege. Deixa ela. Todo mês tenho que pagar pro agiota o dinheiro que ele me emprestou pra comprar a geladeira.  O que eu quero é  me mudar pro Empire State, aquele prédio lá na Rocinha, ou minha graça não seja Raimunda. Lindo, onze andares, no melhor ponto da favela.

Bruno ligou ontem me convidando pra sair. Inventei uma desculpa e não fui. Achei que queria me levar pro Motel. Tenho saudade do Bruno, mas meti na cabeça que vou me manter pura até o dia em que botar o pé no Empire State.  Porque sexo desconcentra e sexo dá vontade de mais sexo e tira a razão. Como não transo há seis meses não sinto vontade,  estou bem,  mas não posso ter recaídas.

A Jupiara acha que virei sapata. Diz que faz mal pra minha reputação só ser vista trabalhando, ou saindo do culto com nossas amigas convertidas. Também deixei de beber e fumar. E isso sim,  está me deixando louca. Outro dia minha patroa pediu que eu limpasse os rodapés todos do apartamento num dia. Quase saltei em cima dela. Mas me acalmei depois de encontrar uma nota de cinqüenta paus no bolso da calça de seu Vergara. Encontrado não é roubado, quem perdeu foi relaxado já falava minha mãe pra nós, lá em Minas. E eu vou conseguir.  Meu nome é Raimunda, feia de cara, mas boa de bunda.

 

 na revista Nós do i.



por Mónica Marques às 18:48

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