22.02.10

 

 

 O grande escritor brasileiro Rubem Fonseca é uma figurinha fácil, todas as manhãs bem cedo no bairro onde moramos os dois, o Leblon. Muitas vezes tomei o café da manhã ao seu lado, nas mesinhas de rua do Talho Capixaba na Avenida Ataúlfo de Paiva. E pude por isso observar, tanto os modos calorosos como trata os empregados do café, como a magnífica simplicidade com que se deixa fotografar pelas fãs –  quase sempre mulheres lindas, sim.

Tratando-se do meu grande mestre, concluí com agrado que Rubem Fonseca não é um piroso.  Um desses seres altamente convencidos e sem educação que se escondem atrás dos livros e dos computadores nas redacções dos jornais, ou num qualquer estúdio de gravação,  se achando os Reis da Cocada Preta.  O Rubem Fonseca é um cavalheiro no modo e na forma como compreende que aquela foto ou aquela palavra, que não lhe custam mais que cinco minutos do seu dia, podem ser tão importantes para os outros. A isto se chama ter educação. Que era o que todos deveríamos ter. Pelo menos os afortunados de nós que estudaram. Ou a cabeça só serve para usar chapéus e ter tiques de boa educação, enquanto na vida real se é um superficial, um piroso mental?

Eu vivo num pais onde as pessoas são realmente mais afáveis e menos pirosas do que aí em Portugal,  onde os homens se reconhecem pelas camisas Ralph Lauren que vestem e as mulheres, eu ia dizer, pelo cabeleireiro que frequentam. Mas a maioria das mulheres daí vai muito pouco ao cabeleireiro, e portanto não dá, vou ter que deixar para a próxima para entender melhor em que circunstancias uma portuguesa se reconhece devedora, por exemplo, de uma resposta a um email recebido.

Estou mal habituada, eu sei. Deve ser porque aqui andamos todos nus, ou quase.  Fica dificílimo sacar quem pertence a qual tribo e portanto saber, seus pirosinhos das roupas, se as pessoas merecem ou não os nossos preciosos cinco minutos, quando o seu traje é uma simples sunga ou um mero biquíni.

Se eu tivesse continuado uma snob pirosa (estou cada vez mais snob, mas felizmente menos pirosa, as duas coisas vêm com a idade) nunca teria querido conversar com o  cronista Ruy Castro, que usa um sungão azul horrível - de onde é difícil desviar os olhos pois o homem é um superdotado - e portanto não teria aprendido metade das coisas que ele me contou sobre o Rio de Janeiro, porque ele quando começa a falar não se cala. Ou nunca teria chegado perto do Nelson Motta, um baixote suadinho de calções de licra e  blusas de manga à cava, ou dos meus amigos João e Beth, Carlos e Carol que conheci na praia, todos nus.

Tenho muitas vezes saudades da minha avó que me ensinou que uma coisa é ter-se aquilo a que ela chamava tiques de boa educação e outra, muito diferente, é ser-se uma menina bem educada.

E digo-vos, as pessoas que têm tiques de boa educação, essa praga tão em voga em Portugal,  notam-se logo. Os homens tiquesentos parecem uns mariquinhas, afectados e amaneirados, mas em mau, porque nunca levaram com ele no dito cujo, e as mulheres tiquesoides querem sempre saber onde moram as outras pessoas, não achando nada bem se a resposta for, por exemplo, Algés City. Nada a fazer. Se lhe acontecer isto é porque está à frente de um piroso, só desculpável porque não teve avós, nem bebeu mazagrans quando jovem, mas agora bebe e até os dá aos filhos, pois, apesar de tudo, a economia tem evoluído e isso permite certas extravagancias.

Acredite, pior que estar na frente de um piroso por fora, só ficar perto de um piroso mental. Pessoinhas que ligam muito à roupa e precisam vestir marcas para se sentir seguras. Pessoinhas que não respondem emails. Pessoinhas que têm vergonha da mãe, do pai e dos avós. Pessoinhas que nunca falam no passado, com medo de serem descobertas. Name Droppers. Pessoinhas que querem ser o que não são. Pessoinhas invejosas. Pessoinhas que não gostam de ouvir a sua história, ou que gostariam mais de ouvir a sua história se você se chamasse Pardadela de Abreu. Pessoinhas que não lêem, ou só lêem “coisas complicadotas como Walser”. Pessoinhas que gostaram da nouvelle cuisine e hoje são loucas por cozinha molecular, aquelas merdas em copinhos que nunca se sabe se é para comer à colher ou beber, mas não sabem o que é um arrozinho de tomate. Pessoinhas que moralizam muito. Pessoinhas muito politicamente correctas. Pessoinhas que andam na moda. E pessoinhas que acham que fazem tudo certo, raramente têm dúvidas e nunca se enganam. Pessoinhas que acham que vão apodrecer melhor que os outros:  a cheirar a Chanel 5 ou a um perfume qualquer que compraram no Duty Free. Aliás o nome de todos os pirosos deveria ser Dutifri. Como sempre o Velhinho - que tem um sentido de humor inigualável e que por certo gozaria com isto tudo -  é que tem razão. Viva Luis Fernando! Verissimo, Verissimo, meninas.

 

Crónica publicada na Nós Pirosos, i. 

 

 

 

 



por Mónica Marques às 10:52

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