21.03.10

 A puta da melancolia

 

Deve ter sido uma triste conjugação de factores ou um  azar no alinhamento dos planetas, nasci melancólica. Nasci toda errada, toda romântica, toda parva e com uma queda para uma malfadada escuridão da alma, uma porcaria de um abismo qualquer que quando se vai trato logo  de fazer voltar em jogos e jogatanas que só eu, dois amigos e o coitado do meu analista conhecemos, porque não sei viver de outra maneira.

Aos seis anos depois de mais um episódio do Marco, passei uma tarde inteira à janela a olhar o infinito - e o infinito era um acampamento de ciganos, em Benfica - e não foi pelo coitado do rapaz que nunca conseguia reencontrar a mãe. Estava era preocupada com o fim do mundo que aquele gordo facínora da escola se lembrou de me anunciar como estando para breve.

Aos dez, quando as minhas amigas andavam a tentar acertar nos buracos do minigolfe nas férias de Verão que passava nas Açoteias, na Praia da Falésia, eu já gostava e ficava tonta com o cheiro doce de umas florzinhas cor de rosa que me afectavam o cérebro e o discernimento fazendo-me ansiar pelo momento na vida em que me iria acontecer ter um amor impossível como o da Gerusa  pelo doutor Mundinho, da telenovela.

Hoje pergunto-me porque é que nunca quis ser a Gabriela, muito mais gira, descalça e nua de um lado para o outro, às voltas com seu Nacib.  Porque é que, o que eu  queria eram os  filmes de fazer chorar, sofrer da mona e sofrer de dor de cotovelo e ser verde e mal encarada e ter um namorado chato como o  Mundinho, em vez de um fulano que me fizesse rir como o seu Nacib.  Mas como com os anos  a gente habitua-se a tudo fui deixando de me perguntar e dei por adquirido que esta desgraça, de eu ser assim, não se explicava tinha-me acontecido e nunca mais ia acabar.

Foi por isso que fui uma adolescente horrível, muito chata e entrongalhada, metida numas camisas aos quadrados muito largas e com uns óculos redondos de massa vermelha a quem não faltou uma cereja no topo do bolo: ser tristemente apaixonada pelo namorado da minha melhor amiga, linda e nada nostálgica.

Tudo isto um grande desgosto para a minha mãe que é uma pessoa muito prática e me comprava roupas giríssimas que eu queimava, e gostava (ainda gosta) das coisas boas e simples da vida, como dançar  até se acabar, ao som dos ABBA, Martinis e patuscadas  em casa de amigos. E uma estranha alegria em minh alma que não se contentava com nada menos que com esta infelicidade eterna: amar sem esperança e para sempre o amor da minha melhor amiga e, já agora, a minha melhor amiga, também. 

Assim, só podia ter acontecido o que aconteceu e transformei-me numa ninfeta - poeta incrivelmente produtiva. Aos quinze comecei a escrever versos como o vergonhosamente famoso, Dá-me um beijo que saiba a paz. E apesar de totalmente ensandecida, ou talvez por isso mesmo, nunca consegui ganhar o tal beijo de sabor medonho que teria acabado imediatamente com a piroseira. Ganhei foi um concurso de poesia na escola que me fez continuar a produção de bimbalhices,  por mais uns anos. Metade dos habitantes de Benfica dos anos oitenta deve ter um poeminha meu guardado numa gaveta, para uma eventualidade, que estes quadrinhos de miséria aparecem sempre e sempre nas piores alturas.

Por isso quando fui para o Brasil e pus as maminhas de silicone - entes queridos e interessados avisaram-me que depois de ter tido os meus filhos tinha ficado a parecer uma índia da amazónia, do something - comecei a ter uns ataques de pânico em meio àquelas noites quentes: Era o medo que descobrissem a minha verve, porque o silicone e a fantástica visão das minhas novas mamas estavam a matar a puta da melancolia.  Comecei então a andar muito mais interessada em escolher decotes giros e vestidos, do que em saber sobre a  influência de Kierkegaard nos filmes do Woody Allen. Desde o affair-maminhas  comecei a andar estranhamente desinteressada de poesia e do existencialismo e ainda hoje suo muito na presença de poetas.

Se houve coisas que o Brasil me deu e que agradeço todos os dias aos meus orixás foram estas duas mamas novas e a possibilidade de trocar a observação fadista e  tristonha da vida, por todo um outro universo mais palpável e cheio de jogadores de volei de praia. Continuo uma chata mas abandonei aquele olhar de bibliotecária maluca com o diabo no corpo, que todas as melancólicas usam para enfrentar a dureza dos dias e catrapiscar homens que choram.

Facto que a minha amiga Sofia, que nunca é visitada por estes abismos e me tira muitas vezes deles, agradecerá. É que uma mulher aos quarenta prefere ser gira a ser inteligente. Que se foda o movimento das nuvens no céu. Que se foda a melancolia.

 

 

publicado na revista do i, Nós Melancólicos. 



por Mónica Marques às 00:01

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