28.03.10

Já fumei mas não inalei ou com charutos não é.

 

 

O fantástico estilista inglês Alexander Mcqueen costumava dizer, antes de se matar no mês passado, que tinha saído directamente da barriga da mãe, para uma parada gay. Eu não digo, mas penso muitas vezes que saí directamente da barriga da minha mãe para os braços da perdição, isto é, para a estrofe 83 do canto IX de Os Lusíadas do Camões,  A Ilha dos Amores. Que é, como sabem, onde ele descreve o encontro dos navegadores portugueses com as ninfas que os esperavam, industriadas por Vénus para lhes darem O Amor.  O Amor é sempre em caixa alta e até podia ser a bold, não é uma gralha, não - apetece-me quase gritar porque os 13 chineses aqui em baixo estão especialmente barulhentos e não me deixam concentrar – mas então, O Amor, esse amor que os portugueses aí tiveram, longe das suas mulheres, porque mereciam, coitados e estavam cansadíssimos do mar, é aquele mais perfeito de todos: adúltero, apaixonado, imediato, arrebatado e carnal. O Camões era poeta, sabia muito bem.

Ora então e dito isto agora expliquem-me, façam-me uns esquemas, desenhos qualquer coisa, mas expliquem-me como é que uma pessoa normal, vamos imaginar uma pessoa normal a casar aos 26, pode ter disto toda a vida, uma Ilha dos Amores, o calorzinho de um, ou dois  Brandy Croft a seguir ao almoço , todos os dias. Pois claro, não pode.  Uma pessoa que casa aos 26 olha para o lado e vê aquela coisa a que agora os terapeutas familiares chamam: A conjugalidade. E o que é a conjugalidade? A conjugalidade é não ter vontade de pintar as unhas dos pés de cor de laranja, é dar um encontrão ao lindo que está a ressonar, é ver tudo o que não se quer ver e não ver nunca mais o que se viu.  A conjugalidade, meu querido João Sampaio, (é o meu melhor amigo, tem quase quarenta anos e portanto falamos muito destas coisas) é o contrário do amor, é não ter vontade de se ser convencido. É uma luta, um cansaço, um dever, um medo de ter medo de voltar a despirmo-nos à frente de outra pessoa. Tirar os  trapinhos e mostrar as cicatrizes e a flacidez e mostrar  aquilo em que nos tornámos. Todo um pacote difícil de vender.  Não há força, não há paciência, empurra com a barriga, o amor esse amor que eu quero, esse filme série B, essa novela Mexicana, acaba sempre por acabar, fica-se conjugal e é-se aquela coisa traidora em sonhos molhados ou não.

Ainda bem que sou freudiana e não consigo imaginar um mundo sem punição que é a maneira mais prática de controlar e controlar as outras pessoas e por isso ando sempre preocupada em dar a volta ao assunto que aqui nos traz.  O problema para mim é que alguém, um Deus qualquer lá em cima anda a ver tudo,  e assim não dá para fazer merda da grande, eu cá tenho tanto medo de fazer asneiras que jurei a mim mesma que iria escrever tudo aqui sem pronunciar uma única vez o assunto sobre o qual isto versa. Assuntos destes, do Demo, só trazem nózinhos chatos de desatar e eu sou um perigo a escrever, toda a gente acredita que sou aquilo que escrevo, não sou, às vezes não sou, sou melhorzinha do que aquilo que sai. Isto é, quando ponho os palitos, ponho devagarinho. E como é que se faz isto dos palitos devagarinho? Por exemplo, flirtando e fugindo. Flirtando e fugindo e acreditando sinceramente que existe uma palermice chamada Poliamor, que é um amor que nos permite ser isso sem ser isso, porque se conta tudo a todos os interessados e os interessados não levantam uma palha e até acham engraçado os amores andarem todos à procura de fazerem porcarias uns com os outros. Inventam. Já o flirt é uma possibilidade grande de se estar a ser aquilo sem ser aquilo. Porque é um prazer que erotiza e ao mesmo tempo reforça as regras do que queremos rejeitar, fumamos mas não inalamos e com charutos não é intercourse e tal. Uma no cravo outra na ferradura, uma coisa como o pique esconde a que os meus filhos devem estar a brincar a esta hora no Rio de Janeiro,  toca e foge, ambiguidade, dúvida e emoção para uma pessoa se sentir vivinha da Silva e poder sucumbir, sem culpa, aos acidentes do desejo que é uma coisa que anda aí, o desejo e o interesse por outras pessoas especiais que nos fazem bem e aparecem às quatro da tarde de  uma terça feira modorrenta para nos tirar do sério e da vidinha, porque nos tocaram naquele ponto fraco qualquer ou nas maminhas sem querer e ninguém é de ferro.

E mais não digo, não consigo mais,  esta custou muito a escrever.  Só acabo como comecei,  com um recado em verso do Camões,  “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo”. Está lá escrito na estrofe 83 do Canto IX. Porque ele era tudo menos cegueta.

 

Publicado na Revista Nós Infiéis, do i

 

 

 



por Mónica Marques às 13:45

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