18.06.10

 

 

Onde Estão?

 

Na enseada de Botafogo o mar é cinza

e sobre ele se erguem os rochedos da Urca,

o Pão de Açúcar.

É tudo solidamente real.

 

Mas e os mortos,

onde estão?

O Vinicius, por exemplo,

e o Hélio? a Clarice?

Não quero que me respondam.

Pergunto apenas, quero

apenas

fundamente

perguntar.

 

Ia cruzando a sala de manhã quando

me disseram: a Clarice morreu.

E no banheiro, depois, lavando as  mãos,

lavava eu as mãos já num mundo sem ela

e água e mãos eram um enigma

de sensações e lampejos

ali na pia.

É que a morte revela a vida dos vivos?

 

Quando Darwin morreu

fomos todos para o seu apartamento na Rua Redentor.

Ele estava esticado num banco

enquanto eu via

pela janelasobre a praia

um helicóptero

a zumbir na atmosfera iluminada

longe.

 

Theresa, Guguta, Zuenir,

estavam todos ali e o bairro

funcionava, a cidade funcionava aquela manhã

como em todas as manhãs.

 

Não era realidade demais

para alguém deixar assim

para sempre?

 

A caminho do cemitério me lembro

havia uma casa espantosamente ocre

recém-pintada - e até hoje me pergunto

o que há de espantoso numa casa ocre

recém-pintada.

 

Não sei se devido à quantidade de automóveis

que há na cidade

o surdo barulho das ruas

e os aviões que cruzam o céu

o certo é que

subitamente

me pergunto por eles.

 

Onde estão?

Onde estou?

O mundo é real demais para alguém pensar

que se trata de um sonho.

 

Ferreira Gullar, in Barulhos



por Mónica Marques às 21:16

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