30.07.10

1. Cheguei aos quarenta muito mais feliz do que cheguei aos trinta ou aos vinte. Isso nem se fala, porque aos vinte cheguei toda parva e cheia de coisas humilhantes na cabeça.

Dias antes de fazer quarenta anos consegui assistir, totalmente sem culpa, ao nascer do Sol. Ver nascer o Sol sempre foi difícil para mim. Tem de certeza a ver com a culpa, esse peso que me acompanha desde que nasci porque no acto provoquei as dores de parto à minha mãe que, esperta, se drogou como na época ainda pouco se fazia.

No entanto, acho importante dizer que no dia em que assisti ao nascer do Sol estava no Alentejo o que facilitou a acção e havia perdizes passeando à minha frente. Isso achei o máximo - são engraçadas a andar -  e fez-me pensar em todas as vezes que depois de uma direta fechei as persianas a correr nos lugares onde estava, ou me fechei neurótica em algum quarto escuro para fugir a essa cena que me deprime. Como deprime fumar um piriri e pensar que o meu pai - engraçado nunca penso na minha mãe, édipo, édipo - vai ficar chateado se souber. Fiz quarenta, mas tenho que adaptar-me porque tenho cabeça de 15.

 

2. Tenho a certeza, e digo isto sem nenhum pudor ou porque fiz quarenta anos e estou me achando, que as pessoas estão cada vez mais malucas. Todas as pessoas, incluindo eu. Mas nunca os meus amigos que apresentam um grau de sanidade mental, sem recorrer a comprimidos, que me deixa parva. Como me deixa orgulhosa que depois corram sem medo a uma farmácia quando sentem que estão a azucrinar os entes queridos. Viver é difícil. Viver sem chatear ninguém é impossível. Os meus amigos são pessoas que têm isto em comum: Não gostam de chatear ninguém. Principalmente eles mesmos.

 

3. Pela primeira vez crianças estiveram presentes no meu aniversário. Eu nunca gostei especialmente de crianças. (Falar disto ao Zieger.)

 

4. Por volta das duas da manhã adormeci num baloiço e deixei que finalmente se divertissem sem terem que se preocupar comigo, ou com os meus ciúmes deles uns com os outros. Eles agradeceram porque todos sabemos que a vida é uma troca.

 

5. Parece que fiz barulhos a dormir. Não acredito.

 

6. Consumimos imenso gelo.

 

7. Estou mais gira. Mas tento não me empolgar muito.



por Mónica Marques às 00:36

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