2.11.10

Cheguei a Buenos Aires um dia depois da morte de Kirchener e três dias antes das eleições brasileiras. Eu adoro Buenos Aires, uma cidade com uma luz invejável, pessoas exageradas, táxis imundos, bairros parecidos com Paris, bairros parecidos com Nova Iorque, e avenidas parecidas com Madrid, onde o café é uma água de lavar pratos, mas não importa. Em Buenos Aires já fui muito feliz. Não devia ter voltado. Ou então devia para ver como é ser feliz. A gente esquece-se até alguma coisa sem importância nos voltar a provar que somos capazes. Depois ela disse-me ao pequeno almoço, Las piedras son para que los rios non se confundan. Disse isto com a simplicidade própria de uma criança de cinco anos, enquanto mexia o Nesquick, no leite, com a palhinha. Fiquei a olhar para ela - antes tinha-me perguntado de onde vinha a água dos rios, eu sei lá -, e juro que a agarrei e lhe dei um beijo que saiu barulhento daqueles que as velhas dão às nossas crianças e até fiquei a pensar se a teria picado, a pele dela era uma maravilha. Tão linda, ela. Talvez já estivesse melancólica com toda a situação: um homem com bom ar que morre assim quando já o tinham avisado que não era para viver assim e por isso era adorado pelo povo, os cartazes nas ruas com ele abraçado à mulher, a bandeira argentina - que é linda - a meia haste em todos os lugares, sei lá, coisas que nos fazem chorar se estamos para aí virados e eu estava e isto foi voltar a Buenos Aires. Depois, depois foi o que já se sabia, uma mulher que nem tem cara de mulher - e portanto uma pessoa nem pode ficar contente - foi eleita pela maioria dos analfabetos brasileiros. Os mesmos que aí em Portugal são execrados por serem putas melhores que nós, ou empregadas domésticas burras ou empregados de mesa maravilhosos e que aqui, nos trópicos, servem muito bem para eleger uma apparatchick do PT (para gáudio dos palermas europeus que acham engraçadinho analfabetos no poder ou uma mulher sem uma única ideia própria - já a ouviram falar?) que é contra o casamento homossexual, a favor e depois contra o aborto, ateia e depois freira, tem um discurso político de meter inveja ao Jerónimo de Sousa e para quem não sabe estamos no século XXI e faz pactos com a cambada do Sarney e dos gajos das Igrejas Universais para se eleger. Tenho muita pena. Gosto muito do Brasil.

por Mónica Marques às 19:32

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