20.01.11

Há um grau de tristeza que quando aparece é bom, muito bom, para escrever. A gente começa a sentir ela vir e começa a ter vontade de escrever. Não para deixar de estar triste, mas para aliviar a tristeza. Alguns dizem: Ok, é como falar com um amigo. Pois é. É como falar com um amigo. Acontece que quanto mais crescidos estamos, menos vontade temos de falar com amigos de certas questões insanas - afinal há a fome no mundo, os aleijados, pessoas que nasceram anãs, ou que vivem com saquinhos pendurados na barriga e eles vão atirar-nos isso à cara, porque já ninguém tem cu. Esses saquinhos têm um nome, eu sei, e também sei para que servem, mas, lá está, o pudor impede-me de seguir com a conversa. Até porque me alongo e eu quero voltar aos graus da tristeza.

Encontrar o grau exato, que por exemplo a mim me leva a conseguir escrever, não é fácil. Há momentos em que não estou triste e então deveria escrever crónicas - quando se está com o humor controlado as crónicas saem muito bem - mas não escrevo porque sou neurótica e desconfio da minha própria alegria. Nesses momentos, a não ser que me paguem, vou para a praia pensar quando virá a próxima crise em que produzirei como deve ser, com método, como o querido João Tordo, por exemplo.

Isto deve ser o tal do bloqueio do escritor. E digo o bloqueio do escritor é  fodido. Porque mesmo com aquele grau de tristeza bom, não sai cagada nenhuma. Não quer dizer que eu tenha tido, ultimamente muitos graus de tristeza bons - considero um grau bom de tristeza aquelas alturas em que se tem saudades de alguém, ou se teve uma briga com o melhor amigo,  duração de duas semanas e tal tendo a certeza(errada, errada!) que se deitou tudo a perder.

Os meus graus de tristeza têm sido de bom para baixo, todos, com ligeiras nuances devido aos fármacos, essas invenções que nos impedem de foder bem, estraçalhar alguém contra uma parede, comer com gosto, beber sem amanhã e pensar. Pensar que é preciso saber estar triste e porque se está triste para poder gozar muito bem o que é o resto, isso de viver com os neurónios acima da linha da água. Comedidamente, é claro, e sem (muita) vontade de escrever porque há alguma coisa mais interessante para fazer.



por Mónica Marques às 21:52

4 comentários:
De May a 21.01.11 às 00:15
Já disse tudo! :) desta vez tinha mesmo de comentar, pois venho de um mundo onde se acha o artista o ser miserável e só, coisa que ele nunca foi! só numa altura da nossa história, e sim, porque era essa a imagem que se tinha. É sim mais fácil escrever assim. Quem sou eu para falar, já que criei um quando precisava, como diz muito bem no texto acima, de desabafar sem ouvir de volta o mesmo de sempre. Quando precisei, mais do que tudo de falar comigo.
O facto é que definir o riso é tão mais difícil do que a inquietação da nossa miserabilidade...
Mais uma vez, parabéns pelo blog.


De Alexandra Diniz a 21.01.11 às 12:20
Deixa essa merda dos Fármacos e faz tudo o que eles estão a inibir. Vive! Vive com a tua essência!


De Dr. Hollywood a 22.01.11 às 04:18
Drogas e solidao: uma perigosa combinacao. Live and let live!


De miss pu a 25.01.11 às 18:42
as tristezas são directamente proporcionais à vida e vivências de cada um


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