24.01.11

Era tão preciso não estarmos todos fodidos. Passou a ser muito raro ouvir Elis Regina. Fujo dela como fujo da poesia e de conversar contigo. Os dez livros de poesia que tenho estão todos escondidos em Lisboa. É preciso uma pureza qualquer que deixei de ter e uma coragem grande para ouvir Elis e ler poesia e falar contigo. As duas coisas ao mesmo tempo: ouvir Elis e ler poesia - aqui tu não entras, descansa - deve ser de morrer. Um bocadinho de Elis e uma tarde de poesia. Devia obrigar-me, para ver o que acontecia. Rimei. Talvez murchasse, talvez não, talvez saísse a gritar pela minha mãe Iemanjá, praia afora... Ou pela minha mãe verdadeira, no Facebook.

Em vez disso, prefiro folhear livros ao calhas do João Cabral de Melo Neto sempre que vou à Travessa para ver se gosto daquilo, quando sei muito bem que não gosto nada daquilo, nem entendo patavina da poesia impossível do João Cabral de Melo Neto.

Quando passou a ser muito raro falar contigo sem ser por sinais de fumo, a única linguagem que tu admites, porque nunca te mostraram que é possível conversar: ouvir e dizer; olhar, tocar, trocar tudo; olhar, tocar, saber tudo; olhar, tocar e ser transparente como a água aqui do Arpoador nos dias de Verão, etc. Quando isso aconteceu, passei a fazer das tripas coração. Ou foi a química que me fodeu o coração. E depois penso em todos os bifes duros que mastiguei à frente do meu pai, na Cervejaria Trindade, cada vez que era preciso ter uma conversa e compreendo-te tão bem, mas não te digo nada. Porque era tão preciso não estarmos todos fodidos. Olha, há uma música da Elis que se chama, Como Nossos Pais. Não oiças. Em vez disso, se puderes acredita no que te digo nesta espécie de sinais de fumo: O samba pode ser uma saída.



por Mónica Marques às 13:00

5 comentários:
De patriciafmota@gmail.com a 24.01.11 às 15:04
Ah! Foda. Estes textos são tão perigosos como poesia. Ainda bem que I like it rough. Mais, mais, please.


De Patrícia Mota a 24.01.11 às 15:36
Ups. Fiquei tão pedrada com o post que até escrevi o meu mail em vez do nome.


De MSC a 24.01.11 às 16:13
Gostei muito do seu primeiro livro e não gostei do segundo. Já o blog parece-me que tem vindo a melhorar e adorei este último post. Também deixei de ter vontade para conseguir ler poesia ouvir a Elis e beber whisky. Deve ser por causa dos ansiolíticos que estou a largar. Acho que tem razão, talvez o samba ou a MPB possam ser a saída. Continue o bom trabalho. F


De José Carlos Piano a 24.01.11 às 18:24
O Samba será sempre uma saída. Dançado por duas Portuguesas de Portugal.


De Pureza Fleming a 25.01.11 às 11:39
que inveja de escrita


Comentar post

Para Interromper o Amor
Transa Atlântica

Nas livrarias
O Inferno são os outros
Correio
folhassoltas@gmail.com
Chelsea Hotel
Freud explica
Technorati Profile
subscrever feeds