28.05.11

Nunca gostei muito de sexo. Sim, tudo bem, praticava e fazia umas coisinhas tudo dentro da normalidade da vida adulta e conjugal e a vida corria sem escravizanços de maior, no que a isso dizia respeito. 

Não gostava de sexo não porque o sexo, às vezes, não corresse bem e tal, mas porque sou uma pessoa muito preguiçosa e que adora dormir. Então durante muitos anos quando chegava a hora da função, conhecida carinhosamente entre algumas mulheres casadas, inteligentes, como a hora de dar o corpinho ao manifesto - normalmente sempre à noite de Sexta ou Sábado – a coisa lá se fazia, com amor e ternura e condescendência pela pilota amada, mas nunca sem uma sensação de traição ao livro abandonado em cima da mesinha de cabeceira. Mais, mais culpa, quando o abandono era a um livro do Philip Roth que também me faz vir. Desta feita intelectualmente.

A minha pele melhorava a tonicidade em cerca de setenta por cento dos dias seguintes e o humor do meu marido melhorava de tal forma, cem por cento das vezes, que era possível planear viagens sem ele, mas com o cartão de crédito dele – que nunca se realizavam, mas que me faziam sonhar - a Nova Iorque, um lugar que adoro e pelo qual sou capaz de vender o corpinho, literal e liberalmente. Como aliás aqui se percebe.

 

Estivemos casados muitos anos e fizemos aquelas maluqueiras todas que as pessoas que estão juntas tanto tempo têm tendência a fazer, para apimentar os rebolanços conjugais, mas sem nunca encontrar o dito spot. Comemos ostras à bruta nas praias de Búzios  - vários desarranjos intestinais por conta - descobrimos a culinária japonesa e viciámo-nos em gengibre, nessa especiaria continuo viciada porque dizem que dá pica e eu não desisto; fiz sexo vendada, odiei; vendei-o, adorou; fiz sexo animal vestida de Capuchinho Vermelho; fiz sexo amoroso vestida de enfermeira com umas ligas pretas, apesar de nunca ter visto enfermeiras de ligas pretas – foi giro; vesti-o de kilt e levantei-lhe a saia para lhe dar beijinhos sexys na pilota; vesti-me com o mesmo kilt e meias de escuteira até ao joelho para que ele pensasse que eu era uma virgem bondosa e desempoeirada e por isso lhe viesse a vontade de me dar beijinhos no pipi, fumámos maconha, fumámos erva em Amesterdão, (recomendo Northern Delight para uma noite de riso e sexo tântrico) bebemos imenso absinto, numa altura em que éramos só namorados e íamos à Maria Bolachas, na Praia das Maçãs, único lugar onde havia o líquido prometido; fizemos amor a ouvir Prince e Marillion também, só nunca a fazer o pino porque eu achava que as maminhas iam ficar caídas numa posição nada excitante. Parvoíces de mulher.

Mas não vos  maço mais com esta exaustiva enumeração dos costumes sexuais de um casal português à procura do Cálice. Até porque o casal se desfez, sem dramas de maior que isto de se fazer tanta coisa a dois cria alguma cumplicidade resistente até aos fins. O amor acaba, as vontades também, as pessoas tornam-se irmãs sem dramas e sem tesão e querem fantasiar o resto da vida  noutro lugar.  Notem que aqui o corpo é filosoficamente considerado um lugar, uma casa, qualquer bimbalhice dessas que lhe queiram chamar. Estou-me nas tintas,  para mim será sempre um invólucro. Uma espécie de embrulho  mais ou menos bonitinho, mais ou menos mamalhudinho, mais ou menos loirinho e queira Deus Nosso Senhor sempre muito cheiroso.

 

Então, quando nos separámos os dois tornámo-nos cépticos em relação ao amor e houve até uma fase em que  fui vista no Rio frequentando círculos nihilistas, até um dia em que ele foi catrapiscado por uma mamalhuda do Ceará e eu por uma linda na Praia das Bandeirinhas, no Rio de Janeiro. Desamigámo-nos do Facebook, mas continuámos saudavelmente amigos na nossa vida real que deu uma movimentada de 180 graus... Às vezes imagino-o hilário em meio a loucas espanholadas e mais não quero saber. Quanto a esta que vos fala, tenho a dizer que se tornou numa quarentona super sexual. Há meses que não leio um livro até ao fim e estou-me nas tintas para o facto. A vida tem destas coisas. E tem mãozinhas e dedos -  já viram que chegámos a um turning point qualquer da história. E os dedos, meus caros e minhas caras, são os melhores amigos das pessoas que antes só queriam dormir ou ter orgasmos psicológicos, porque com dois dedinhos apenas se descobrem mares nunca antes navegados. Desculpem lá o nojo da imagem que arranjei e que no fundo até me parece bem e não vou explicar porquê porque para bom entendedor meia palavra basta. É. Estou a falar da borbulha do Ponto G. Aquele lugar que prometia, nos livros e nas palavras de sexólogas intelectuais e giras petits morts enlouquecedoras, enriquecedoras, espampanantes e não sei quê e que durante quarenta anos da minha vida esteve lá sem servir para nada e de repente alguém foi amorosamente buscar para me dar e assim tudo mudar. Rimei e foi de propósito. Esta crónica é para ela e para todas as mulheres que acham que aquilo não existe. Existe, sim e é maravilhoso. Beijem na boca e procurem, porque sexo é bom, sexo é muito bom.

 

(Crónica publicada hoje no suplemento LIV do i)

 

 

 

 

 



por Mónica Marques às 19:50

Para Interromper o Amor
Transa Atlântica

Nas livrarias
O Inferno são os outros
Correio
folhassoltas@gmail.com
Chelsea Hotel
Freud explica
Technorati Profile
subscrever feeds