23.09.08
DEPOIS DE TODOS AQUELES ANOS sem conseguir se interessar por ninguém, aquela súbita vontade enquanto estendia a roupa no varal da cozinha deixou Dona Paula intrigada. Vasculhou o seu dia e não encontrou nada de especial. Nada que pudesse despertá-la da vida quase monástica que levava desde a morte de Cícero, marido extremoso que a prendera num amor de vida inteira.
Acordara às sete e meia, sem sequer ter sonhado com arranjar um grande amor, um sonho ritmado de todas as noites que a deixava esperançosa. Principalmente se, no sonho, o pretendente falasse, Minha querida Maria Paula, num qualquer tom de voz perto do que recordava ser o do falecido.
Depois das abluções tinha descido para tomar café na padaria e comprado couve e laranja da Bahia para a feijoada familiar do Sábado, a que seus três filhos compareciam – mais por falta de imaginação e medo de magoar Dona Paula que por amor filial – com suas estúpidas noras e os diabos dos meninos. Depois subira, arrumara a casa, puxando muito bem os lençóis da cama e limpando a poeira de todos os cômodos. E pôde relaxar, decidindo só estender a roupa no varal depois dos beijos da novela das oito, porque as noites estavam quentes de lascar e dormir cedo era um suplício.
Graças a Deus, Cícero deixara-a bem de vida, sem precisar trabalhar, ou depender dos filhos, mas não gostava de gastar à toa e por isso não tinha comprado um ar para o quarto. Doutor Celso, seu médico alergologista e único homem na sua vida, além dos meninos, seu Zé da Padaria e de Elias açougueiro, também a incentivara muito, uns dois dias atrás, a manter apenas o ventilador de teto mostrando-lhe por a mais b que os ácaros gostavam era de ambientes refrigerados. E acrescentando num romantismo talvez inesperado e que ela achou muito descabido – Doutor Celso sempre lhe parecera um solitário empedernido todas as vezes que tivera que a auscultar para saber de suas crises de asma – que não havia nada melhor para o amor, que o sonzinho das pás de madeira contra o escuro da noite e um ar fresco entrando pela janela.


por Mónica Marques às 19:24

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