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um blog da diáspora blasée

Vá, invejem.

Setembro 26, 2008

HÁ HOMENS QUE TÊM UM CERTO PODER sobre este blog. Como é o caso do Pedro Vieira. Por razões que, às vezes, aparecem óbvias. Até aos vossos olhos. Hoje, comigo-ninguém-pode.

Olhos de ressaca

Setembro 25, 2008

NÃO FAZIA A MÍNIMA – naquela altura já era um produtor com nome feito no mercado – do porquê daquela fantasia exótica de organizar um evento em que o objetivo era colocar um bando de anormais a ler Machado de Assis, em voz alta, por oito horas seguidas.

A rotina, ou talvez a falta de uma razão para viver. Só podia. Estava assim, desde que Duda o atirara para escanteio, como ela, tão linda, lhe dizia sem dó nem piedade, ao som de todos os cd´s de Martnália, que ele comprara para lhe agradar.

As noites tinham ficado sem graça. E os dias, rodeado de mulheres portuguesas, sem cintura, tornavam-no um homem ressentido. Queria a paixão. Mesmo que ela lhe tivesse mentido com todos os dentes branqueados, que tinha trazido na boca, da última viagem ao Rio. Tão linda, tão linda, tão linda outra vez. Estava cego na luz dos seus dentes e pedia-lhe, nesses tempos sem vergonha, Sorri para mim, Duda, vá lá. E depois acabavam a rir muito daquela estupidez. E era esta a Maria Eduarda de todos os poderes e mais os daquele seu santo, que o deixava totalmente desnorteado. A ponto de organizar maratonas literárias, usando o nome do mulato carioca como pretexto, só para ver se ela aparecia, talvez com saudades do tempo de escola em que, obrigada pelo excelso ministério da educação, aprendera a dizer adeus a todos os seus namorados com olhos de ressaca.

O mar estava a puxar

Setembro 24, 2008

HAVIA UM PROBLEMA A RESOLVER, mas era Agosto, em Agosto problema algum se resolvia.
Em Agosto havia o Alentejo, as praias do Alentejo com ondas e mar gelado, lancheiras com sandes de Panrico e sumo de laranja Tang que gostava de preparar para as crianças, como sua mãe havia feito para ele e seus irmãos, nos verões da sua infância.
Vasco gostava de coisas simples carros desarrumados e sujos. Mas tinha um problema para resolver e então olhava para os pés e lá estava o problema. Enterrava o chapéu de sol azul na areia e sentava-se na cadeira de lona amarela da praia, tentando descobrir alguma coisa interessante para ler nos vários cadernos do Expresso. E lá estava o problema. Besuntava as crianças com protetor solar e o problema ficava-lhe incrivelmente colado às mãos. Depois da praia, comer ameijoas estava fora de questão e isso é que era mesmo uma chatice, porque adorava os moluscos.
Poderia nunca mais lhe ligar. Mudar o número de telefone.
Em dias de grande alucinação mental achou até que a salvação era finalmente concorrer ao MNE e sair de Portugal. Mas depois sabia por algum acaso, um ou outro cheiro, que continuava apaixonado por ela. E achava que a víbora, com certeza, lhe apareceria também no Uganda, nas bolhas de moet, ele distraído em algum beberete, vendo pretas de lábios giros e rodeado de pretos soberbos e corruptos. Talvez se tentasse a Estónia. Ela nunca lhe apareceria na Estónia. Vasco mergulhou e quando voltou à superfície agarrou-se a uma rocha com muita força, porque o mar estava a puxar muito. Mas infelizmente, ainda teve tempo de pensar nela.

Oversexed again

Setembro 23, 2008

DEPOIS DE TODOS AQUELES ANOS sem conseguir se interessar por ninguém, aquela súbita vontade enquanto estendia a roupa no varal da cozinha deixou Dona Paula intrigada. Vasculhou o seu dia e não encontrou nada de especial. Nada que pudesse despertá-la da vida quase monástica que levava desde a morte de Cícero, marido extremoso que a prendera num amor de vida inteira.
Acordara às sete e meia, sem sequer ter sonhado com arranjar um grande amor, um sonho ritmado de todas as noites que a deixava esperançosa. Principalmente se, no sonho, o pretendente falasse, Minha querida Maria Paula, num qualquer tom de voz perto do que recordava ser o do falecido.
Depois das abluções tinha descido para tomar café na padaria e comprado couve e laranja da Bahia para a feijoada familiar do Sábado, a que seus três filhos compareciam – mais por falta de imaginação e medo de magoar Dona Paula que por amor filial – com suas estúpidas noras e os diabos dos meninos. Depois subira, arrumara a casa, puxando muito bem os lençóis da cama e limpando a poeira de todos os cômodos. E pôde relaxar, decidindo só estender a roupa no varal depois dos beijos da novela das oito, porque as noites estavam quentes de lascar e dormir cedo era um suplício.
Graças a Deus, Cícero deixara-a bem de vida, sem precisar trabalhar, ou depender dos filhos, mas não gostava de gastar à toa e por isso não tinha comprado um ar para o quarto. Doutor Celso, seu médico alergologista e único homem na sua vida, além dos meninos, seu Zé da Padaria e de Elias açougueiro, também a incentivara muito, uns dois dias atrás, a manter apenas o ventilador de teto mostrando-lhe por a mais b que os ácaros gostavam era de ambientes refrigerados. E acrescentando num romantismo talvez inesperado e que ela achou muito descabido – Doutor Celso sempre lhe parecera um solitário empedernido todas as vezes que tivera que a auscultar para saber de suas crises de asma – que não havia nada melhor para o amor, que o sonzinho das pás de madeira contra o escuro da noite e um ar fresco entrando pela janela.

Blomia Tropicalis

Setembro 17, 2008

O QUE VEM ANTES? Perguntou-se Helena, na frente do ecrã do laptop que o marido lhe oferecera para poder trabalhar em casa e onde se dispunha a passar parte dos seus dias, exercendo o supremo direito da vingança que é o que fazem todos os bons jornalistas de meia idade, após terem acumulado os ódios de estimação necessários a qualquer existência sadia.
O que vem antes? A história, ou o título?
Nos primeiros anos de jornalismo, era quase sempre chamada para dar o título às matérias. Depois, ao longo dos tempos, nas redações, os colegas continuaram a gostar dos títulos extravagantes que engendrava, para os textos imberbes dos que ainda não tinham carteira do sindicato, nem se permitiam usar a barba que distinguia um jornalista em inicio de carreira e com vontade de se ater apenas ao reportar fino e frio dos factos, de um grande repórter. Ou de um advogado canalha, ou de um economista neo-liberal... Esses sim, seres bem ataviados e principalmente sem medo do sucesso entre mulheres escritoras, advogadas, atrizes de Tchekhov, editoras, enfermeiras, médicas, faxineiras e demais marafonas giras.
Helena sentia-se nostálgica porque acabava de receber a notícia da morte de seu tio-avô Alberto Barata Ribeiro e via-se entrando, pela mão dele, na redacção do Jornal Livre, onde anos mais tarde escreveria a sua primeira notícia – uma breve sobre um acontecimento sem importância, em Lisboa, que lhe levara o dia inteiro a redigir e lhe valera um puxão de orelhas protetor do editor, um advérbio de modo acentuado...
Quando ela só tinha sete anos e usava laços nos cabelos e depois, ao longo da vida, os homens sempre tinham essa vontade de a proteger que a deixava sem pica, ou sem vontade de fazer subir a temperatura de alguns encontros mais ou menos secretos, como o daquela noite em que Pedro a convidara para comer um bife, após o fecho da edição e os dois se beijaram e deram as mãos, sentados nos sofás pejados de Blomia Tropicalis do Snob.

Fantasmas

Setembro 14, 2008

CECÍLIA ENTROU NO RESTAURANTE de comida a peso com vontade de comer Torta Alemã. Havia seis meses que não cozinhava uma única refeição, mais ou menos desde que Roberto saíra de casa para ir viver com Fernanda, atriz quarentona, completamente desconhecida e por isso com muitos problemas de auto-estima. Assim Roberto lhe colocara a questão, durante as conversas em que o amor deles morria e mesmo assim ficavam satisfeitos por serem terrivelmente verdadeiros um com o outro.
Pousou a bolsa nas costas da cadeira, pegou a comanda e foi até ao buffet pensando em Roberto transando com a atriz problemática. Pensamentos que lhe davam fome de doce e não de comida de sal. Mas obrigou-se a servir-se de um pouco de salada com molho vinagrete baixas calorias e uns quadrados de tofu. Uma coisa que não sabia a nada, não a podia engordar.
Pesou o prato, oito reais, estava comendo cada vez menos e voltou à mesinha do canto do salão, de onde podia ver sem esforço a porta do restaurante.
Cecília achava que não, mas estava já enfeitiçada pelo estranho homem, de ótimo aspecto, que há quatro domingos jantava sozinho na mesinha da frente e que, sem ela notar muito bem, lhe ia acabando com a dor forte que sentia no peito, só porque tinha uns olhos que lhe pareciam de leitor e usava aquelas camisas brancas que lhe ficavam bem, especialmente na parte do corpo que distingue os homens bonitos dos outros, o pescoço.
Deixou-o acabar a refeição, demorando muito e tomando deliciada toda a Coca-Cola Zero, e depois de se satisfazer com a delícia que a levara ali e quando ele chegava com a sua fatia, fez-lhe sinal para que se sentasse no lugar vazio à sua frente.
Oi, meu nome é Cecília. Além de Torta Alemã, você gosta de outras coisas?
Ele riu e comeu um pedaço de torta e disse aquela coisa que tempos depois ainda recordariam, nas vezes em que se amavam bem.
Cecília, deixa eu te falar uma coisa. Se não passar, não é grave. É só porque não passa.

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